Intermezzo III. O Elevador da Transformação

Gravura do intermezzo III: O Elevador da Transformação

De que trata este intermezzo. Um elevador da transformação ágil com cento e vinte e sete andares. Sobem um andar por iteração, com retrospetiva entre cada; carregar no botão do 127 é pensamento waterfall. O apogeu do absurdismo ágil: a decomposição vertical do movimento, o planeamento adaptativo da ação mais simples. Uma caricatura das iniciativas de digital transformation em que o processo da transformação passou a ser o seu único produto.

Alisa saiu da cave e encontrou um elevador da Kone com uma placa dourada «Digital Transformation — C-Level» no átrio de colunas de mármore, onde cada pormenor do interior custava mais do que todo o orçamento anual de IT de uma startup média. As portas abriram-se sem ruído, e ela deu por si numa cabina envidraçada com vista panorâmica de Moscovo, ao lado de um homem baixo num fato Stefano Ricci e do mesmo gato às riscas já conhecido, que agora segurava um iPad Pro numa capa de couro Hermès.

— Subimos até à alta direção — anunciou o homem com a solenidade de um cosmonauta a partir para estrelas distantes. — Chamo-me Transformador. O Behemoth é quem conduz o nosso digital roadmap.

O gato tocava com importância no ecrã com a pata.

— Para onde vamos? — quis saber Alisa.

O Transformador acenou solenemente para o teto, como um maestro a reger a sinfonia do crescimento empresarial: — Aos cumes do planeamento estratégico! Onde nascem as decisões da transformação ágil.

O elevador iniciou a subida com a lentidão cerimonial de um caixão no funeral da eficiência.

Alisa olhou perplexa para o painel: — Não se pode ir mais depressa?

O gato, sem levantar os olhos do tablet, proferiu uma verdade filosófica: — A iteratividade é o nosso credo. Andar a andar, como respirar: inspirar — planeamento, expirar — retrospetiva.

— Quantos andares planeiam?

O Transformador endireitou os ombros com o orgulho de um arquiteto da Torre de Babel: — Cento e vinte e sete! Cada um exige uma decomposição pormenorizada do movimento vertical.

O segundo andar recebeu-os com uma paragem digna de clímax histórico.

Alisa olhou inquiridora para o indicador.

— Retrospetiva — pronunciou o gato com a reverência de um arqueólogo a estudar cacos de uma civilização antiga. — Estamos a analisar os êxitos da subida.

— Que êxitos?

O Transformador desfez-se num sorriso: — Um avanço extraordinário! Um andar é cem por cento mais do que planeávamos alcançar.

— Cem por cento mais do quê? De zero?

— Precisamente! — assentiu o gato com uma franqueza que beirava a santidade. — O plano de base pressupunha ficar no mesmo sítio. O continuous improvement fez o milagre do movimento.

Passado um minuto — terceiro andar. Paragem no compasso de valsa de tartaruga.

— De novo discussões?

O Transformador ergueu um dedo pedagógico: — Sessão de planeamento! O quarto andar exige uma abordagem estratégica.

— Basta carregar no botão do andar.

O gato olhou para ela como se lhe tivesse proposto resolver uma equação quadrática à martelada.

— As transições diretas violam a metodologia de análise passo a passo de cada incremento vertical.

— E carregar já no «127»?

O Transformador estremeceu, como perante uma blasfémia: — Abordagem waterfall! A agility pressupõe adaptabilidade a cada passo da subida.

Alisa fixou o painel do elevador e descobriu que, em vez dos números habituais, o exibia as inscrições: «Sprint 1», «Sprint 2», «Retrospective», «Planning», «Grooming», «Demo».

— Como determinam o momento da chegada?

O gato ergueu o tablet como artefacto sagrado: — Definition of Done! O andar fecha depois de o seguinte estar planeado.

— E no último — no cento e vinte e sétimo?

— Planeamos o cento e vinte e oitavo — explicou o Transformador impassível.

— Que não existe!

— Precisamente por isso a viagem é eterna — o gato iluminou-se numa iluminação zen. — Sustainable velocity sem o risco de conclusão.

O quinto andar trouxe uma nova passageira — uma senhora elegante de fato, exalando eficiência e perfume caro.

— Alisa! Que encontro! — o iPad ergueu-se em gesto de saudação. — Guelá, coach de métodos ágeis. Como estão as impressões do processo de transformação?

O Messire da Consultoria era, se a memória não falha, um homem. Mas Alisa começava a compreender as regras da casa: os nomes da retinue distribuem-se aqui como crachás de conferência — quem chega primeiro fica Voland.

— Quatro andares em meia hora.

Velocity impressionante! — brilharam os olhos de Guelá. — No trimestre passado dava apenas dois andares por hora.

— Quanto tempo até ao cento e vinte e sete?

Uma calculadora pôs-se a trabalhar nas mãos de Guelá com a intensidade de um computador quântico.

— Ao ritmo atual... quarenta e dois anos, com margem de erro a tender para o infinito. Contudo, temos um plano de otimização!

— Qual é?

O gato ergueu solenemente a pata: — Um segundo elevador! Fluxos paralelos duplicarão a produtividade.

— Mas o movimento é o mesmo — Alisa semicerrou os olhos. — Para o mesmo andar, em sincronia.

Guelá tomou a pose de um estratega militar: — Equipas cross-functional! Um fluxo planeia, o outro faz retrospetiva.

— E quem é que anda?

— Estamos a conduzir um comprehensive stakeholder mapping analysis — respondeu o Transformador. — A determinar a equipa ótima para a mobilidade vertical.

O sexto andar trouxe um novo companheiro — um gato ruivo de gravata Hermès e pasta de consultor.

— Azazello, mestre do scrum paralelo. — A gravata foi objeto de correção diplomática. — Estamos a testar uma estratégia alternativa de mobilidade vertical.

— Qual?

— Movimento descendente! — Azazello desfez-se num sorriso de descobridor. — Abordagem pivot: se para cima é difícil, exploramos para baixo.

— Resultados?

— Fenomenais! Sete andares para baixo contra quatro para cima. A superioridade é evidente.

— Estão a afastar-se do objetivo.

Azazello inflamou-se com fanatismo startuper: — Princípio fail-fast! Validação-relâmpago: a descida é uma direção pouco promissora.

— Passo seguinte?

Pivot! — os gatos entoaram em coro a mantra empresarial. — Movimento horizontal como novo vetor de desenvolvimento.

O quadro pisquiscava no sétimo andar com a desolação de cancelled flights. Alisa sentiu cansaço.

— Posso sair e ir a pé?

— A user story do movimento pedestre não consta do atual roadmap — animou-se o Transformador. — O backlog do Q3 admite essa possibilidade.

— E agora?

O Behemoth ergueu pela primeira vez o olhar do tablet: — Estamos à espera do product owner. A priorização entre elevador, escadas e teletransporte exige uma decisão estratégica.

— Teletransporte?

Guelá iluminou-se com a inspiração de Colombo: — Um projeto moonshot! Disruptive innovation em instant mobility. Transporte instantâneo para o andar-alvo.

— Como vai?

— Está agendado um discovery workshop para planear a investigação — Azazello assumiu ares de Einstein. — Em paralelo, conduzimos um feasibility study do próprio feasibility study.

Alisa estendeu a mão para o botão vermelho de emergência. O templo da filosofia ágil exigia abandono imediato.

— Espere! — o Transformador acenou com os braços. — Ainda não fizemos o demo!

— Demonstrar o quê?

— Uma stakeholder presentation dos nossos achievements em transformação vertical — explicou o Behemoth com importância.

— Sete andares numa hora é uma demonstração?

Learning journey showcase! — Guelá resplandeceu em revelação filosófica. — Mais o roadmap do nosso continuous improvement.

— Quando é o fim — o cento e vinte e sete?

Os olhares dos interlocutores cruzaram-se no espanto de quem foi convidado a inventar uma máquina do tempo dentro do elevador.

— Colocação incorreta do problema — o Transformador abanou a cabeça. — Focamo-nos em outcomes, não em outputs.

— Que outcome? — a palavra pareceu a Alisa uma iguaria exótica de restaurante de gastronomia molecular.

O gato ergueu as patas para o teto: — Sustainable transportation experience! Uma cultura de mobilidade vertical, mais stakeholder engagement no paradigma de continuous value delivery.

Sem mais cerimónia, Alisa carregou com força no botão vermelho. O elevador estacou, as portas abriram-se — sétimo andar.

Emergency exit protocol — animou-se Azazello. — Requer-se uma exit retrospective antes do procedimento final.

Alisa deslizou para fora do elevador e encontrou umas escadas comuns — sem retrospetivas, sem planeamentos, sem stakeholder mapping. Degraus simples subiam. Nas suas costas:

— Azazello, comprehensive post-mortem da saída antecipada! — comandava Guelá. — Mais uma sessão de lessons learned.

— Planeamos também um workshop de emergency procedures?

— Brilhante ideia! Depois da análise das partes interessadas — a quem os emergency procedures são de facto relevantes.

Oitavo andar, janela de patamar. Em baixo — o «Centro de Transformações Ágeis» com silhuetas de pessoas a olhar para quadros kanban. No telhado girava lentamente uma seta com a inscrição «Continuous Improvement».

No terreno ao lado construía-se uma casa. Sem quadros, sem sprints, sem retrospetivas. Tijolo a tijolo, parede a parede. A casa crescia.

«Curioso — pensou Alisa —, se saberão o que é velocity e os burndown charts

Os pedreiros continuavam metodicamente. Violavam os princípios ágeis e não o sabiam.

A casa subia para o céu.


¹ Nota de disciplina de PI: seguindo a nota 1 do intermezzo-1 — os nomes das personagens da retinue de Voland (Voland, Behemoth, Koroviev, Azazello, Guelá, Margarita) seguem o cânone português Antonio Pescada (Editorial Presença); os diálogos novos destes intermezzi são compostos em português europeu original do autor pela consistência de registo de voz ao longo da série, conforme regra estabelecida na nota 1 do capítulo 4. Nenhuma citação verbatim de traduções portuguesas contemporâneas sob direito de autor.