Intermezzo II. Cave de Produção

Gravura do intermezzo II: Cave de Produção

De que trata este intermezzo. Cave de produção: 237 bugs pendurados, 189 P0 são recodificados em P1, P1 em P2, P2 em dívida técnica, dívida técnica — em workshop do próximo trimestre (que ainda estão a planear). Metodologia ágil como evitação formalizada da programação. Quatro stand-ups por dia para sincronizar uma equipa que nada produz entre stand-ups. Sátira mais afiada do que qualquer análise post-mortem.

A escada para baixo terminava numa porta com a placa «Production. Entrada Interd.» — e Alisa deu por si numa cave onde zumbiam servidores, piscavam díodos e cheirava a pizza fria. Aos monitores estavam sentados três: uma senhora com o porte de uma prima donna operática, um programador magro com óculos Ray-Ban (falsificação do Sadovod) e o mesmo gato às riscas já conhecido, que batia no teclado com as quatro patas ao mesmo tempo.

— Oh, a rapariga veio ao stand-up! — alegrou-se a senhora. — Chamo-me Margarita, sou a product owner. Behemoth faz manutenção do código legado.

— Código legado não se pode manter — ronronou o gato sem se afastar do ecrã. — Com ele pode-se apenas estar numa relação. Complicada.

— Stand-up? — repetiu Alisa. — Mas já é meio-dia.

— Do meio-dia! — resplandeceu o programador de óculos. — Temos quatro: o matinal às nove, o do meio-dia à uma, o da tarde às cinco e a reunião de meia-noite às vinte e três e trinta. Para melhor sincronização.

— E sobre que se sincronizam?

— Sobre tarefas! — Margarita fez um gesto largo, como uma anfitriã a mostrar a prataria de família. — Temos duzentas e trinta e sete tarefas pendentes em produção. Muito produtivo.

— E quantas já corrigiram?

Fez-se um silêncio tal que da sala ao lado se ouviu o zumbir dos servidores. Os programadores entreolharam-se.

— Messire — ronronou o gato —, a rapariga volta a fazer perguntas erradas.

— Não corrigimos bugs, minha querida — explicou Margarita com paciência. — Priorizamo-los. P0, P1, P2, P3. Mais criticidade: A, B, C, D. Mais codificação de cores por áreas — para melhor visualização.

— E o que significa P0?

— Bug crítico — cravou o programador de óculos. — Corrigir de imediato.

— E há muitos?

— Cento e oitenta e nove! — disse Margarita com orgulho.

— E corrigem-nos?!

— Para quê? Convertem-se em P1. Quando aparecem novos P0.

— E os P1?

— Em P2.

— E os P2?

O gato finalmente desviou o olhar do portátil:

— Em dívida técnica. E a dívida técnica eliminamos no próximo trimestre.

— Ou seja, nunca.

— Porque logo nunca? — ofendeu-se Margarita. — Planeámos um workshop sobre dívida técnica. Para o próximo ano. De momento estamos a planear este workshop.

— E o que estão a programar agora?

O de óculos olhou para ela com espanto:

— Não programamos. Fazemos estimativas e planeamento. Temos uma metodologia ágil, veja bem.

— E quem programa então?

— A automação! — disse Margarita com solenidade. — O pipeline de build e deploy.

— E funciona?

— Cai todos os dias — comunicou o de óculos alegremente. — Mas temos monitorização! Mostra gráficos muito bonitos de quedas. Quer que imprimamos um calendário?

— Messire — disse o gato —, e se mostrássemos à rapariga a nossa velocity?

Margarita estalou os dedos e na parede acendeu-se um gráfico com curvas de todas as cores do arco-íris.

— A velocity de trabalho cresce há três meses seguidos!

Alisa olhou com atenção. Na vertical iam «pontos de história», na horizontal — sprints.

— E o que são pontos de história?

— Unidade de complexidade de tarefa — disse o de óculos. — Atribui-se por tomada coletiva de decisões. Planning poker: cada um mostra um cartão com um número, ficamos com o máximo.

— Porquê o máximo?

— Por segurança. Se a tarefa se revelar mais complexa, pode haver perguntas.

— De quem?

— DAS PARTES INTERESSADAS — responderam os três em coro, e até os servidores, pareceu, zumbiram mais baixo.

— E quem são as partes interessadas?

Novo silêncio. O gato parou de teclar.

— Sinceramente? — sussurrou o de óculos. — Não sabemos ao certo. Mas são muito importantes e perguntam constantemente pelos prazos.

— E que prazos?

— O próximo sprint — anuiu Margarita. — Sempre o próximo sprint. É um prazo muito cómodo: nunca chega e está sempre próximo.

O gato deu uma risadinha e pôs-se a lavar-se.

— E não experimentaram — sugeriu Alisa com cuidado — pegar e simplesmente fazer, pelo menos, uma pequena correção? Em vez de todos estes planeamentos?

Os rostos dos programadores contorceram-se de horror.

— Sem estimativa?! — sussurrou o de óculos.

— Sem planeamento?! — arquejou Margarita.

— Sem processo de aprovação?! — indignou-se o gato, encolhendo as orelhas.

— Isso é engenharia do caos! — disse Margarita severamente. — Temos critérios de conclusão. Requisitos de aceitação. Definition of Ready. E política.

— Que política?

— Ninguém faz nada sem aprovação — explicou ela com orgulho.

— E quem dá aprovação?

— O comité de tomada coletiva de decisões.

— E quando é que se reúne?

— Uma vez por trimestre — disse o gato voltando ao teclado. — Estamos a planear a próxima reunião. Ordem de trabalhos: aprovação da ordem de trabalhos.

Alisa dirigiu-se lentamente à escada. Nas suas costas ouviu-se:

— O Korzhikov tinha razão — suspirou Margarita. — A rapariga não compreende as abordagens corporativas.

— Talvez lhe façamos uma introdução ao assunto? — sugeriu o de óculos.

— Boa ideia. Planeamos uma masterclass sobre planeamento do processo de introdução ao assunto.

— E eu, entretanto, ainda vou configurar a monitorização — disse o gato. — A cor vermelha das quedas deixou de me agradar. Faço-a bordô — é mais nobre e menos irrita as partes interessadas.