Intermezzi

Intermezzo I. Apartamentos de Consultoria

Mad Tea Party como agile dysfunction: medem métricas, mas não lançam produtos.

Gravura do intermezzo I: Apartamentos de Consultoria

De que trata este intermezzo. Diagnóstico satírico do teatro Agile através de Carroll + Bulgakov. Consultoria onde 43 equipas, 208 sprints e 1200 retros por mês não produzem um único produto. Sprints para retros, retros para planear os próximos sprints. «Sete papéis coordenam o trabalho de uma pessoa consigo mesma» — e a isto chama-se processo maduro. Espelho literário para todos os que já conduziram uma Program Increment Planning.

Alisa subiu as escadas até à placa «Centro de Transformação Ágil» em Moscovo City, torre «Federação», 42.º andar, e deparou-se com uma sala espaçosa com vista panorâmica sobre o anel viário de Moscovo — exatamente aquela que se espera num lugar onde se transforma tudo exceto os resultados. À mesa redonda de vidoeiro da Carélia estavam sentados três: um consultor elegante em fato preto da Bosco, um enorme gato às riscas e um homem baixo com um tique nervoso.

O consultor apontou para uma cadeira Herman Miller.

— Entre, acomode-se. Estamos precisamente a discutir a otimização da metodologia — apanhou-nos no auge do processo intelectual. Café? Temos Illy, máquina de ₽900 mil.

O gato cortava com solenidade uma sandes de caviar com faca e garfo de alpaca, demonstrando aquele nível de disciplina operacional que tão raramente se encontra em equipas Agile.

O consultor esclareceu:

— Behemoth é o nosso diretor técnico. Korzhikov, mestre-sénior de scrums, certified e tudo o mais. E a menina como se chama?

— Alisa. E o que fazem aqui?

Korzhikov teve um estremecimento — pelos vistos, a pergunta apanhou-o num momento de reflexões particularmente complexas sobre os processos.

— Implementamos metodologias ágeis! Temos quarenta e três equipas, duzentos e oito sprints por mês, mil e duzentos retros.

Alisa perguntou com aquela inocência que no meio Agile é considerada de mau tom:

— E quantos produtos lançam?

Fez-se um silêncio tal que até o ar condicionado Daikin pareceu demasiado ruidoso.

O gato ronronou, sem se afastar da sandes:

— Messire, a rapariga faz perguntas erradas.

O consultor concordou:

— Behemoth tem razão. Medimos métricas de velocidade, diagramas de burndown, pontos de história. Produtos — isso é pensamento em cascata, abordagem obsoleta para os que não compreendem as realidades contemporâneas.

Alisa hesitou:

— Mas então para que servem os sprints?

Korzhikov explicou com entusiasmo:

— Para fazer retros! E os retros para planear o próximo sprint!

O gato interveio e sorveu do pires algo transparente, evidentemente qualquer coisa fortificante para o espírito no processo de transformação:

— E o próximo sprint para fazer retros.

O consultor acrescentou com solenidade:

— A isto chama-se melhoria contínua. Ontem implementámos o framework SAFe — sabe, Scaled Agile Framework. Agora temos Program Increment Planning de dois em dois meses.

— E planeiam o quê?

Korzhikov respondeu:

— Planeamos o planeamento do próximo planeamento. Temos uma estrutura organizacional muito complexa, entende. Tribos, guildas, esquadrões.

Alisa observou:

— Como na Idade Média.

Corrigiu o consultor:

— Modelo Spotify, minha querida. A metodologia mais contemporânea. Cada tribo tem o seu Chapter Lead, cada guilda o seu Guild Master — e entre eles coordena-se o Tribe Lead através de uma estrutura matricial de reporte, assegurando a total transparência dos processos.

— E quantas pessoas se coordenam?

Korzhikov respondeu com orgulho:

— Sete. Mas em compensação temos rastreabilidade total dos processos de tomada de decisão.

— Sete pessoas precisam de tribos e guildas?

O consultor corrigiu com a paciência de quem já explicou isto múltiplas vezes a investidores e audit committees:

— Não sete pessoas, sete papéis. As pessoas podem acumular — a isto chama-se cross-functional approach. Korzhikov, por exemplo, é simultaneamente Scrum Master, Product Proxy e Release Train Engineer em regime de suplência.

O gato deu uma risadinha e pôs-se a lavar-se com a pata.

— E o que fazem os restantes quatro papéis?

— Coordenam o trabalho do Korzhikov consigo mesmo — explicou o consultor com o orgulho de um arquiteto. — Temos um processo muito mature de tomada coletiva de decisões.

— Messire, e se mostrássemos à rapariga o nosso quadro Kanban?

O consultor fez um gesto com a mão e na parede apareceu um quadro enorme — obra de arte da gestão contemporânea. Colunas: «To Do», «In Progress», «Code Review», «Testing», «Ready for Deployment», «Blocked», «Waiting for Approval», «On Hold».

Alisa reconheceu:

— Bonito. E o que está nas colunas?

— Uma tarefa — respondeu Korzhikov com orgulho. — «Configurar CI/CD pipeline». Está pendurada há oito meses.

— Em que coluna?

— Em todas ao mesmo tempo — explicou o gato. — Aplicamos o quantum agile approach. A tarefa encontra-se em sobreposição de todos os estados possíveis até ao momento em que alguém tente executá-la.

— E alguém tentou?

— Isso violaria o princípio da incerteza de Heisenberg — disse o consultor severamente. — Temos um papel dedicated de Observer, que zela por que ninguém colapse a wave function dos nossos processos.

— E quem é esse Observer?

— Korzhikov — respondeu o gato, voltando à sandes. — Ele observa-se a si mesmo. Um processo muito reflexivo.

Alisa olhou desconcertada para o quadro, depois para o trio à mesa.

— E se tentassem simplesmente fazer alguma coisa útil? Sem quadros e sem retros?

Korzhikov horrorizou-se:

— Como assim, sem quadros?

— Isso é anarchy — disse o consultor severamente. — Temos processos. Governance. Compliance.

— E enchidos muito saborosos ao pequeno-almoço — acrescentou o gato, terminando a sandes.

Alisa levantou-se com cuidado e dirigiu-se para a saída, tentando não perturbar o equilíbrio quantum agile. Nas suas costas ouviu-se:

— Korzhikov, comece o retro. Discutimos por que a rapariga não apreciou o nosso roadmap de transformação.

— E discutimos o quê concretamente? — perguntou Korzhikov a si mesmo.

— Ora, primeiro, faremos uma análise de envolvimento das partes interessadas — respondeu-se a si mesmo com outra voz. — Segundo, registaremos lessons learned sobre a comunicação com utilizadores externos.

— E terceiro? — perguntou-se com uma terceira voz.

— Terceiro — responderam em coro todas as três vozes do Korzhikov — planearemos um workshop sobre a melhoria do planeamento de workshops.

— E eu, entretanto, ainda vou cortar mais uns enchidos — acrescentou o gato. — E criar um Epic no Jira intitulado «Iniciativa de Enchidos» com subtarefas. Corte, disposição, apresentação às partes interessadas.